domingo, 17 de julho de 2011

A Paciência de Deus

O reinado de Deus é a boa semente semeada pelo Filho do homem, o trigo que cresce no mundo em meio a situações difíceis, em meio a forças inimigas.
Os empregados da parábola do joio e do trigo são impacientes, querem acabar logo com o joio. Fazem pensar nas atitudes imediatistas e simplistas, para não dizer vingativas e violentas, que hipocritamente dividem as pessoas em boas e más, em amigas e inimigas.

A boa semente que o próprio Jesus semeou tem em si o poder de germinar e frutificar, mesmo em meio ao joio. Mas, como as sementes precisam de tempo, o reino também requer paciência.

É com paciência que Deus age. Deus não quer separar, mas dar tempo para que o reino aconteça no mundo e não fora dele. Jesus é o espelho dessa paciência divina, ao rejeitar o pecado e perdoar o pecador, ao procurar aqueles que a sociedade rotulava como malditos.

Na explicação de Jesus, o joio são os “filhos do maligno”, as pessoas que pactuam com a maldade. Muitas situações e forças são claramente contrárias ao projeto de vida que Deus deseja. Mas, concretamente, não é o caso de fazer a “caça ao joio”, mesmo porque não seria tão simples identificá-lo. E, sempre que se exclui alguém, algo de bom também se perde. Além disso, querer fazer justiça com as próprias mãos seria trair o próprio projeto de Deus.

Aprender a paciência de Deus, em vez, é o convite do evangelho. Paciência não é conformismo, mas a certeza de que o reino está em curso, transformando a história, como a menor das sementes que naturalmente se torna grande planta, como o fermento que tem a força de transformar toda a massa.

O reino é o homem semeando no campo, é a mulher fermentando a massa, somos todos nós trabalhando juntos, pela transformação deste mundo para melhor. Um trabalho paciente, sobretudo para conviver com o joio. Não tanto o joio que ge¬ralmente identificamos com os outros, nossos inimigos, mas o joio mais daninho, aquele que está dentro de nós mesmos.

Pe. Paulo Bazaglia, ssp (Periódico O Domingo)
 
 
 

domingo, 26 de junho de 2011

A cadeira

Numa pequena cidade do interior, o pároco visitava semanalmente os doentes do hospital local. Foi prontamente atender ao pedido de um homem que o chamou no meio da noite para rezar com ele.
Quando o sacerdote chegou, encontrou o enfermo na cama, com a cabeça apoiada num par de almofadas. Ao lado dele, uma cadeira, que o padre logo pensou estar ali para quando ele chegasse para rezar.
- Suponho que estava me esperando – disse o sacerdote.
Espantado, o homem respondeu:
- Não, quem é você?
- Sou o sacerdote que sua filha chamou para rezar com você. Quando cheguei e vi a cadeira ao lado da cama, achei que era para mim.
- Ah, sim, a cadeira – exclamou o homem! Entre e feche a porta.
Ao fechar a porta e sentar-se ao lado da cama, o sacerdote começou a ouvir o pobre doente.

- Esta é a primeira vez que falo com alguém sobre isso, mas é que na verdade nunca aprendi a rezar. Passei a minha vida toda sem saber o que é oração. Nunca me ensinaram a rezar e eu também nunca me preocupei em aprender. Pensava que Deus estava muito distante de mim, e nunca dei importância para a ideia de conversar com ele. Até que um dia um amigo me disse que rezar era muito simples e faria muito bem para mim. Que minha vida se transformaria por completo. Então, ele me ensinou. Disse para me sentar em frente a uma cadeira vazia e imaginar que Jesus está sentado ali. O próprio Jesus disse que estaria sempre ao nosso lado, podemos então conversar com ele sempre que quisermos. Você pode falar com ele sobre todas as coisas que desejar. Contar seus problemas, pedir conselhos, abrir plenamente seu coração como se estivesse falando com um grande amigo. Tentei uma vez e gostei muito do resultado. Desde aquele dia, tenho conversado com Jesus diariamente. Só tomo cuidado para que minha filha não me veja, para não pensar que estou louco.

Muito emocionado, o sacerdote respondeu àquela demonstração de fé dizendo que o que fazia era muito bom e deveria manter este hábito. Rezou com ele por alguns minutos e logo foi embora.

Dois dias depois, a filha comunicou ao sacerdote que o pai havia falecido. Na certeza de que o homem havia falecido em paz, perguntou como foram seus últimos momentos de vida.

A filha respondeu:

- Quando eu estava para sair, ele me chamou ao seu quarto. Disse que me amava muito e me deu um beijo. Quando voltei do trabalho, algumas horas depois, já estava morto. Só havia uma coisa estranha na sua morte. Antes de morrer, ele chegou bem perto da cadeira que estava sempre ao lado de sua cama e encostou a cabeça nela. Eu o encontrei debruçado sobre a cadeira. Por que será isso?

O sacerdote, profundamente comovido, enxugou as lágrimas e respondeu:

- Ele partiu nos braços de seu melhor amigo.

Fonte: Frei Darlei Zanon no livro Parábolas de Fé

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Qual a origem da festa de CORPUS CHRISTI ?

Todos os católicos reconhecem o valor da Eucaristia. Podemos encontrar vários testemunhos da crença da real presença de Jesus no pão e vinho consagrados na missa desde os primórdios da Igreja.

Mas, certa vez, no século VIII, na freguesia de Lanciano (Itália), um dos monges de São Basílio foi tomado de grande descrença e duvidou da presença de Cristo na Eucaristia. Para seu espanto, e para benefício de toda a humanidade, na mesma hora a Hóstia consagrada transformou-se em carne e o Vinho consagrado transformou-se em sangue. Esse milagre tornou-se objeto de muitas pesquisas e estudos nos séculos seguintes, mas o estudo mais sério foi feito em nossa era, entre 1970/71 e revelou ao mundo resultados impressionantes:

•A Carne e o Sangue continuam frescos e incorruptos, como se tivessem sido recolhidos no presente dia, apesar dos doze séculos transcorridos.


•O Sangue encontra-se coagulado externamente em cinco partes; internamente o sangue continua líquido.

•Cada porção coagulada de sangue possui tamanhos diferentes, mas todas possuem exatamente o mesmo peso, não importando se pesadas juntas, combinadas ou separadas.

•São Carne e Sangue humanos, ambos do grupo sanguíneo AB, raro na população do mundo, mas característico de 95% dos judeus.

•Todas as células e glóbulos continuam vivos.

•A carne pertence ao miocárdio, que se encontra no coração (e o coração sempre foi símbolo de amor!).

Mesmo com esse milagre, entre os séculos IX e XIII surgiram grandes controvérsias sobre a presença real de Cristo na Eucaristia; alguns afirmavam que a ceia se tratava apenas de um memorial que simbolizava a presença de Cristo. Foi somente em junho de 1246 que a festa de Corpus Christi foi instituída, após vários apelos de Santa Juliana que tinha visões que solicitavam a instituição de uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento. Em outubro de 1264 o papa Urbano IV estendeu a festa para toda a Igreja. Nessa festa, o maior dos sacramentos deixados à Igreja mostra a sua realidade: a Redenção.

A Eucaristia é o memorial sempre novo e sempre vivo dos sofrimentos de Jesus por nós. Mesmo separando seu Corpo e seu Sangue, Jesus se conserva por inteiro em cada uma das espécies. É pela Eucaristia, especialmente pelo Pão, sinal do alimento que fortifica a alma, que tomamos parte na vida divina, nos unindo a Jesus e, por Ele, ao Pai, no amor do Espírito Santo. Essa antecipação da vida divina aqui na terra mostra-nos claramente a vida que receberemos no Céu, quando nos for apresentado, sem véus, o banquete da eternidade.

O centro da missa será sempre a Eucaristia e, por ela, o melhor e o mais eficaz meio de participação no divino ofício. Aumentando a nossa devoção ao Corpo e Sangue de Jesus, como ele próprio estabeleceu, alcançaremos mais facilmente os frutos da Redenção

Por: Carlos Martins Nabeto

Fonte: Agnus Dei

Missa Paroquia Bom Pastor de Alphaville dia 23 as 10h00

domingo, 19 de junho de 2011

Comunhão de Amor

Na celebração da Santíssima Trindade, a liturgia propõe o final do Evangelho de Mateus, texto missionário em que Jesus ressuscitado encarrega os discípulos de continuar sua atividade.

A Trindade, perfeita comunidade de amor, é o modelo para todos os seguidores de Jesus, que têm no mundo a missão de constituir comunidades acolhedoras, onde se vive o amor fraterno.

Daí que Jesus envia os discípulos, e a nós hoje, com a missão de fazer de todas as pessoas discípulos por meio do batismo em nome da Trindade. O batismo, que insere os filhos de Deus na comunidade cristã, ao ser feito em nome da Trindade santa, recorda a cada cristão que a unidade de amor existente em Deus é desafio a perseguir aqui nesta terra. E isso só é possível porque, por força desse mesmo batismo, em nós habitam o amor do Pai criador, o exemplo e a graça do Filho salvador e a força animadora do Espírito santificador, Espírito que nos permite recordar e atualizar hoje o que Jesus fez e falou há 2 mil anos.

É o Espírito, também, que nos impele a seguir o mandato de Jesus de ensinar a todos a observar tudo o que ele falou, começando com o exemplo e a coerência da própria vida. O mesmo Espírito, aliás, que nos mantém na certeza de que a Jesus foi dada toda a autoridade e de que ele estará conosco até o fim dos tempos...

Celebrar a Trindade, portanto, é celebrar a perfeita comunhão de amor de Deus. É celebrar nossa própria missão, pois, pelo batismo, somos marcados pelo selo do amor de Deus trino, com a vocação de vivenciar em comunidade o amor divino, acolhendo e integrando a todos. Este é o caminho: o amor que está em Deus estará também em nós à medida que levarmos adiante nossa missão em comunidade, propondo gratuitamente a todos a vida nova por nós assumida por força do batismo, que nos insere na dinâmica de amor da Trindade.


Pe. Paulo Bazaglia, ssp (O Domingo)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dia 13 de junho - Dia de Santo Antonio -Missa na Paróquia Bom Pastor as 19h00 com a Bênção dos paes.

Santo Antônio é o Santo mais popular do Brasil conhecido por ser o Padroeiro dos pobres, Santo casamenteiro, sempre sendo invocado para se achar objetos perdidos. Essa é a minha homenagem a esse santo querido, que é reverenciado em 13 de junho
Viva Santo Antonio!!

.Fernando de Bulhões (verdadeiro nome de Santo Antônio), nasceu em Lisboa em 15 de agosto de 1195, numa família de posses. Aos 15 anos entrou para um convento agostiniano, primeiro em Lisboa e depois em Coimbra, onde provavelmente se ordenou.
 Em 1220 trocou o nome para Antônio e ingressou na Ordem Franciscana, na esperança de, a exemplo dos mártires, pregar aos sarracenos no Marrocos. Após um ano de catequese nesse país, teve de deixá-lo devido a uma enfermidade e seguiu para a Itália. Indicado professor de teologia pelo próprio são Francisco de Assis, lecionou nas universidades de Bolonha, Toulouse, Montpellier, Puy-en-Velay e Pádua, adquirindo grande renome como orador sacro no sul da França e na Itália. Ficaram célebres os sermões que proferiu em Forli, Provença, Languedoc e Paris. Em todos esses lugares suas prédicas encontravam forte eco popular, pois lhe eram atribuídos feitos prodigiosos, o que contribuía para o crescimento de sua fama de santidade.

A saúde sempre precária levou-o a recolher-se ao convento de Arcella, perto de Pádua, onde escreveu uma série de sermões para domingos e dias santificados, alguns dos quais seriam reunidos e publicados entre 1895 e 1913. Dentro da Ordem Franciscana, Antônio liderou um grupo que se insurgiu contra os abrandamentos introduzidos na regra pelo superior Elias.
Após uma crise de hidropisia (Acúmulo patológico de líquido seroso no tecido celular ou em cavidades do corpo). Antônio morreu a caminho de Pádua em 13 de junho de 1231. Foi canonizado em 13 de maio de 1232 (apenas 11 meses depois de sua morte) pelo papa Gregório IX.
A profundidade dos textos doutrinários de santo Antônio fez com que em 1946 o papa Pio XII o declarasse doutor da igreja. No entanto, o monge franciscano conhecido como santo Antônio de Pádua ou de Lisboa tem sido, ao longo dos séculos, objeto de grande devoção popular.
Sua veneração é muito difundida nos países latinos, principalmente em Portugal e no Brasil. Padroeiro dos pobres e casamenteiro, é invocado também para o encontro de objetos perdidos. Sobre seu túmulo, em Pádua, foi construída a basílica a ele dedicada.
Figura: WEB

PARA PEDIR UMA GRAÇA


Lembrai-vos, ó grande Santo Antônio, que o erro, a morte, as calamidades, o demônio, as doenças contagiosas, tudo foge com vossa intercessão. Por vós, os doentes recobram a saúde, o mar se acalma, as cadeias dos cativos se quebram, os paralíticos recobram os membros, as coisas perdidas voltam a seus donos. Os jovens e os velhos que a vós recorrem, são sempre ouvidos. Os perigos e as necessidades desaparecem. Cheio de confiança, dirijo-me a vós. Mostrai hoje vosso poder e obtende-me a graça que desejo. Amém

domingo, 29 de maio de 2011

Mesmo assim, alegre-se

Amigos, a nossa vida não é um mar de rosas. A nossa e nem a de muitos que são citados nas Escrituras. A Bíblia é clara em relatar as lutas e dificuldades que grandes homens passaram ao longo de suas vidas, mas também deixa claro que nenhum deles desanimou ou desistiu em meio a essas lutas, pelo contrário, permaneceram firmes em Deus e saíram vitoriosos.

Que assim seja na minha e na sua vida. Mesmo em meio as grandes lutas que viemos a passar, possamos estar firmes no Senhor e sempre nos alegrar no Deus da nossa salvação!!!

“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na videira; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação.” Habacuque 3:17.18



Nesse mundo onde o mal impera podemos em muitas vezes, nos sentir sozinhos, desprezados, sem nenhum rumo a seguir. E isto acontece com uma frequência muito grande em nossas vidas, pois Jesus nos advertiu que iríamos ser insultados, discriminados, injuriados, e tudo mais. E todas as situações, que não dependem de nós, vem para nos causa uma única coisa: Nos abalar.

O Diabo é muito astuto, ele tenta uma vez, tenta duas vezes, tenta três vezes… até conseguir aquilo que quer; se tem uma coisa que o diabo não tem é medo de tentar nos destruir, e você já deve ter comprovado isso em sua vida. Mas em tudo isso temos a vitória completa por meio daquele que nos amou (Romanos 3:17).

Nos preocupamos com coisas tão mesquinhas, tão pequenas. Sentimos dor com uma simples rejeição, com uma simples correção até, e esquecemos que muitos cristãos estão nesse momento sendo massacrados, torturados, enfrentando tribunais, desafiando a Justiça, e até morrendo por amor a Cristo.

E se perguntássemos a essas pessoas se elas, por alguma coisa, desistiriam dessas vidas, tenho certeza de que a resposta seria não; pois é por amor ao IDEAL que estas pessoas estão em reais confrontos carnais e espirituais.

E tudo isso porque não devemos temer nada nem ninguém. Estas pessoas descobriram a verdadeira fortaleza, descobriram o verdadeiro Ser supremo, que está acima de qualquer problema. E é assim que devemos viver. É com uma esperança e uma perseverança verdadeira, alicerçado na fé que recebemos do criador.

No muito ou no pouco, podemos vencer qualquer coisa com a força que Cristo nos dá (Filipenses 4:12.13). E mesmo que a figueira não dê frutos, ou que a saída esteja longe, devemos louvar o criador que cuida de nós. Ele nos faz andar por lugares altos.

Jesus é maravilhoso!!

Posted by Editor-colaborador

quinta-feira, 26 de maio de 2011

IRMÃ DULCE E O AMOR AOS POBRES

Ir. Dulce é conhecida não apenas em Salvador ou na Bahia, mas como em todo o Brasil. Caso alguém a invoque provavelmente recordará dos tantos títulos dados pelo povo a quem tão devotamente serviu: Mãe dos Pobres, Mães dos Inválidos, Anjo Bom da Bahia.
O que muitas pessoas não sabem – ou sequer relacionam como a vida dessa religiosa – é que todo o seu ardor apostólico brotava da sua radical adesão ao Cristo Crucificado. Ir. Dulce ofereceu a sua vida em honra ao Verbo encarnado. De fato, não apenas manteve prudentemente a sua vela acesa como foi incansável no esforço de encaminhar quantas almas pudesse para o redil de Nosso Senhor.

Nos tempos atuais, quando vem tornando-se comum uma visão horizontal das relações humanas, rompendo com o sagrado e a vocação natural do homem de buscar a Deus, Ir. Dulce deu um testemunho avassalador de coerência e amor aos pobres. Ela, mais do que qualquer teórico da luta de classes ou de adeptos das mais estapafúrdias teses “reinocêntricas”, era confrontada a cada dia com as misérias da sociedade e as injustiças do mundo moderno. Não obstante, o seu esforço não estava voltado para a reflexão ideológica e material, mas sim para a prática do amor aos mais necessitados como conseqüente causa da experiência pessoal com e em Cristo.

Ir. Dulce fundara o Círculo Operário da Bahia – com o apoio dos frades menores – preocupada com a triste condição de vida do operariado soteropolitano. Entretanto, assim como os franciscanos, sempre se manteve distante das discussões políticas e, juntamente com a assistência eclesiástica dada no Círculo, jamais permitiu a perda do fervor religioso e a ascensão das idéias comunistas dentro das suas fileiras. Não que faltassem incursões dos grupos de esquerda, mas a piedade daqueles bons proletários católicos desfavorecia qualquer ideologização.

A força de Ir. Dulce sempre fora a oração, o amor a Cristo e às práticas de piedade. Jamais deixara a sua Santa Comunhão diária e a devoção mariana e ao glorioso Santo Antônio de Lisboa. Oferecia os seus pobres como pérolas à Virgem Maria. Ademais, sempre teve em mente o sentido da sua vocação. Nunca se esquecera daquela experiência religiosa determinante na sua convicção vocacional; ainda jovem, na Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, ficara fascinada com aquela cena que parecia ser uma pintura digna das mais impactantes telas barrocas: um ser de branco rasgara os raios de luz que atravessavam as janelas e cortavam toda a nave. Pensou que se tratava de um anjo, mas viu que era uma freira que testemunhava a sua consagração no hábito que usava. A força desse evento foi tão importante que a então Maria Rira, sem saber ao certo de qual Congregação se tratava, até mesmo desconhecendo a vida daquela religiosa, resolvera oferecer a sua vida a Deus como mais uma Missionária de Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

Mais tarde a Superiora Geral, quando as obras de Ir. Dulce já eram grandiosas e de conhecido respeito em toda Salvador, irá obrigá-la a fazer uma triste decisão: ou largar o seus apostolados – estava atrapalhando a vida comunitária e contemplativa, alegara – ou retirar-se da Congregação. Para o Anjo bom da Bahia foi um momento de dor e provação. Depois de consultar-se com santos e doutos sacerdotes e auxiliada pelo então Administrador Apostólico da Arquidiocese Primaz do Brasil, D. Eugênio Sales – mais tarde Bispo titular e Cardeal da Bahia – resolveu pedir a desenclausuração. Não saía da Congregação, mas vira nesse meio a única forma de cumprir não o seu desejo, mas a vontade de Deus nos pobres.

Viveu dez anos fora da comunidade, já que o Convento de Santo Antônio, onde residia com as suas Irmãs, ao lado das Obras Assistenciais, foi desativado e as religiosas transferidas para o Colégio Santa Bernadete. Ainda sendo liberada pelo Cardeal para usar qualquer vestimenta, devido ao acontecido, jamais largou aquele hábito azul e branco que a marcara na mocidade e, assim, tornou-se a única religiosa da sua Congregação na Bahia a não aderir ao modelo reformado e ao não uso que logo veio a ser ordinário.

A sua piedade, confiança na Providência e amor gratuito fazia com que tivesse livre acesso tanto aos casarões da Vitória como às palafitas de Alagados, ao palácio do Governador e às favelas de Maçaranduba. Como a mesma intimidade com que tratava tuberculosos e leprosos dialogava com Dr. Norberto Odebrecht e Dr. Ângelo Calmon de Sá, amigos íntimos e benfeitores.

Os seus gestos e as suas ações falavam de uma religiosa que depois de prostrar-se em adoração ao Jesus-Hóstia saía pelas ruas não para libertar os pobres da opressão ou para incendiá-los com o fogo da paixão ideológica, mas sim para apresentá-los ao Amor encarnado, para uni-los fortemente a Cristo na Sua Igreja através dos Sacramentos. Como filhos de Deus, feitos à Sua imagem e semelhança, os homens eram merecedores da salvação e de gozar de uma vida digna. Esse era o anúncio feito por Ir. Dulce.

Ao longo da sua vida essa Mãe dos Pobres testemunhou a sua radical confiança na Providência e uma sólida convicção no amor de Cristo aos homens. Num inverno muito rigoroso em Salvador, Ir. Dulce ficara doente e não pudera sair pelas ruas distribuindo agasalhos e recolhendo seus pobres para o albergue. A luz da sua cela tornara-se um farol em meio ao mar da miséria, onde homens e mulheres quase congelados gritavam implorando por um cobertor. A religiosa, tomada pela febre, depois de lançar tudo o que tinha - só não distribuíra as poucas vestes que restavam porque foi impedida pelas irmãs - resolvera então descer até a capela e rezar, pedindo a Deus que zelasse por aqueles filhos. Depois da sua oração ordenara que, em procissão, a imagem de Santo Antônio fosse levada até o lado de fora, ainda que as outras religiosas não indicassem pelo frio e por ela encontrar-se enferma. Nada feito! A imagem foi colocada no passeio. Alguns minutos depois, estando em prece no oratório, ouviu um forte estrondo e, ao sair, deparou-se com uma caminhonete que quase se acidentara no muro do Convento. Dela saiu um homem com um rosto já conhecido por ela e pelas irmãs, mas que não sabiam considerar a origem. Começara a tirar cobertores do carro que, imediatamente, foram sendo agarrados pelos miseráveis. O rapaz misterioso, sem dizer uma palavra, entrou no carro e se foi. Qual a surpresa dessas religiosas quando, ao se lembrarem do coitado do Santo Antônio esquecido na friagem, reconheceram claramente aquela face, sabiam finalmente quem era aquele homem: sim, o mais pobre dos filhos de São Francisco viera ao socorro da sua filha querida, a glória de Portugal e orgulho da Itália, Antônio!

Quanta humildade e amor aos necessitados! Ao perambular por Salvador em busca de doações para a compra do terreno onde seria construído o hospital, entrara numa venda e abordara o dono pedindo auxílio para os miseráveis. Estendeu a sua mão e recebeu em resposta uma cusparada! Na sua mais genuína mansidão respondeu: Sim, meu senhor, isto é para mim, agora dê-me alguma coisa para os meus pobres!

Ir. Dulce tornou-se o Anjo Bom da Bahia não apenas porque construíra uma das maiores obras caritativas desse país confiando apenas na Providência, mas sim porque fez a escolha fundamental de amar a Cristo e ser fiel a Ele. No dia do julgamento, quando essa Mãe dos Inválidos for questionada se O vestiu quando estava nu, se O deu de beber quanto estava com sede, se O deu de comer quando sofria de fome, se O viu nos mais pequeninos, poderá responder, gloriosamente, que sim, que tudo ela fez por amor e pelo Amor!

Fonte: Acarajé Conservador.